| ERNESTO DE SOUZA |
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O Brasil rural está sendo redescoberto. As
regiões interioranas, que abrigam um terço dos brasileiros, ou mais de 50
milhões de pessoas, deixaram de ser vistas como espaço único para a
produção agropecuária. Nelas surgiram atividades ligadas à preservação
ambiental - ecoturismo é uma delas - e à manutenção da agricultura familiar.
O livro O Futuro das Regiões Rurais, lançado neste mês e de autoria de
Ricardo Abramovay, professor da FEA - Faculdade de Economia e Administração,
da Universidade de São Paulo, analisa as novas dimensões da ruralidade. Nele e
na entrevista a seguir, o professor mostra o quanto estavam equivocadas as
previsões de que o rural acabaria conforme avançasse o processo de
desenvolvimento.
Globo
Rural - Qual é o
futuro das regiões rurais?
Ricardo Abramovay - A revalorização das regiões interioranas
é um dos mais importantes fenômenos demográficos, sociais e culturais do
início do milênio. Nossa civilização habituou-se a enxergá-las como local
da produção agropecuária, no qual os imperativos da eficiência seriam
incompatíveis com a manutenção de um tecido social rico e diversificado. Os
últimos anos vêm mostrando fontes de desenvolvimento associadas não só à
manutenção da integridade ambiental e paisagística das regiões interioranas,
e uma imensa capacidade de organização para fazer destes atributos as bases da
geração de ocupação e renda. A explosão do ecoturismo e do turismo rural é
apenas um exemplo deste processo.
GR
- Seria uma
reinvenção do rural?
Abramovay - De certa forma, sim, uma vez que o rural cada vez
menos se associa ao estritamente agrícola. E o agrícola cada vez mais será
marcado por exigências de qualidade, de distinção e de atributos ligados à
localização e aos conhecimentos de cada região. Isso já é comum na Europa:
o produto rural (agrícola e não agrícola) é valorizado por sua capacidade de
exprimir uma tradição, um modo de fabricação em que se recuperam culturas e
se colocam à mostra estilos de vida que os habitantes dos grandes centros têm
buscado. Estes novos atributos tornaram equivocadas as previsões de que o rural
acabaria conforme avançasse o processo de desenvolvimento. Assim como nas
cidades não existem apenas indústrias, no meio rural, tampouco, não há só
agricultura e agricultores.
GR
- A participação da
agricultura familiar é essencial para o Brasil rural?
Abramovay - Ela garante a existência de um tecido social que
vai gerar diversas atividades além da própria agricultura. Não é um momento
transitório que será suprimido quando o progresso chegar. Isso não aconteceu
nos países desenvolvidos e não vai acontecer aqui. A agricultura familiar
conseguiu se afirmar em setores extremamente modernos: na produção de aves,
suínos, fumo, produtos ligados a mercados internacionais. De maneira geral, no
Brasil, esse segmento responde por cerca de um terço do valor da produção de
toda a agricultura. No coração do capitalismo mundial - as planícies
norte-americanas, centro e norte da Europa - a agricultura é de natureza
familiar e o trabalho assalariado excepcional.
GR
- Apesar disso, a
unidade familiar de produção sofre com o êxodo rural.
Abramovay - O êxodo rural hoje é muito menor que no passado.
Há diversas regiões rurais que passam por surpreendente processo de
crescimento populacional, com base, muitas vezes, em migração de retorno,
daqueles que perderam seu emprego nas metrópoles e voltam ao lugar de origem.
Mas é claro que existe ainda uma migração rural importantíssima. E ela
atinge fundamentalmente os jovens e especialmente as meninas. Hoje, o campo
brasileiro passa por um duplo processo: de envelhecimento e de masculinização.
O mesmo ocorreu na Europa e nos Estados Unidos. Aqui no Brasil, as moças tendem
a freqüentar mais a escola que os rapazes e a educação acaba servindo como
uma espécie de passaporte para o ingresso em ambientes urbanos de trabalho. Um
estudo que realizei com a Epagri, no oeste de Santa Catarina e junto a filhos de
agricultores familiares, mostra que ficam na propriedade os que têm a pior
escolaridade. Ora, são estes os que terão responsabilidade de gestão da
unidade produtiva, no futuro. A deficiência educacional, neste caso, é grave
porque significa que o patrimônio nacional fundiário está sendo gerido por
pessoas de capacitação muito baixa. Nosso estudo mostra que dois terços dos
jovens entre 15 e 24 anos tinham apenas até a quarta série primária.
Portanto, o desafio da agricultura familiar é educacional, pois ela só será
competitiva se os seus gestores receberem uma formação que os capacite a
integrar os mercados dinâmicos.
GR
- Por que a
multifuncionalidade na agricultura está sendo tão discutida?
Abramovay - É um tema que os europeus estão trazendo para a
discussão da OMC - Organização Mundial do Comércio. Consiste no fato de que
as sociedades contemporâneas vão retribuir ao agricultor por atividades que o
mercado é incapaz de pagar, como a preservação ambiental, por exemplo. A
Europa está diante de um duplo desafio: manter seu lugar no mercado mundial e
atender a uma pressão crescente de sua opinião pública por definições de
políticas voltadas ao desenvolvimento rural. Os negociadores brasileiros junto
à OMC têm razão de temer que a multifuncionalidade seja usada como arma
protecionista. A verdade é que a produção em larga escala de grãos e carnes
nos países centrais só sobrevive com farta injeção de dinheiro público. A
briga na Europa é entre os setores que desejam que estes recursos se voltem a
serviços sociais e ambientais relevantes - e que não deveriam prejudicar os
países em desenvolvimento - e os maiores produtores, que não sobrevivem sem
subvenções. A multifuncionalidade pode ser, de fato, areia nos olhos para
encobrir interesses protecionistas. Mas traz à tona uma pergunta mais
interessante: o que querem as sociedades contemporâneas de seu meio rural?
Apenas produção agropecuária? A resposta dos europeus e as políticas que
eles têm colocado em prática mostram que o meio rural pode oferecer um
conjunto de bens, de serviços e de valores fundamentais para a civilização do
século 21.
Fonte: GloboRural.globo.com http://revistagloborural.globo.com/GloboRural/0,6993,EEC597286-2344,00.html |